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atilio alencar
santa maria, rio grande do sul, Brazil
fui parido no décimo segundo dia de um setembro ameno, no ano de mil novecentos e setenta e sete. segundo me contam, o episódio não alterou muito o mundo a minha volta: antes de mim, as estações do ano já encontravam - se dispostas na ordem que conhecemos, os cães sempre alucinavam em agosto e as armas brancas eram, dentre todas, as preferidas dos assassinos de sangue frio.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eu conheço a chuva.
Segui seus passos azuis na película de uma tarde, senti das suas minúsculas mãos o afago imprevisto.
Eu conheço a chuva: quase como se há muito. Quase como se desde.
Fui no alto beber na nuvem clara do seu rosto, molhar também o meu rosto no seu. Matar minha sede, para viver dessa sede.
Inventamos a cidade, estrangeiro eu e estrangeira a chuva: duma inviolável e secreta cumplicidade. Discretos como todas as coisas selvagens. Afáveis como se nada mais lá fora. Distraidamente obscenos, vez por outra.
E falamos, eu e a chuva, e nem duvido que tenhamos cantado alto pela rua. Assim como quem canta as noites de carne e de lua, para que carne e lua sejam um dia.
Numa noite, terei conhecido a chuva.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Das primeiras insônias

Vinte e tantas mil léguas
em torno do mesmo
verso:

Nuvem embriagada,
farol inútil das horas e
um pouco de solidão.

Em setembro vi flores
que a tempestade poupou,
e fui acometido de uma alegria extravagante.

Eu que não era dado a encantos.
Eu que não durmo mais.
Que sou odiavelmente supersticioso
e vivo a inventar memórias.

Colecionei uns acordes
justo para quando esse setembro,
do jeito que está,
chegasse.

Brusco. Temperamental.
Com flores e silêncio e o chumbo dos trens.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ontem a vida era líquida

Passos lentos, os meus. Tontos, claudicantes. Incertos. Uma certa azia, de ontem, por certo. Um lado da cabeça a pesar mais do que o outro, um olho a sofrer mais com a luz, que não é muita. Uma nota renitente no ar, um perfume nauseabundo na gola da camisa. A lembrança, toda estilhaçada, de vozes estrangeiras, de ruídos surdos. De conversas aos berros, de olhares tortos. Ainda é ontem, a paisagem aqui dentro é a de ontem. O ontem, um assalto a mão armada. Um trem ingovernável, esse fluxo de coisas vagas, essa queda sem chão. Nunca o chão, que deve ser longe, a julgar pela demora do impacto. Visão de neblina. Foco, impossível isso, o centro de tudo é móvel. Por três vezes, tentei dar um basta, ontem, sob aquelas camadas espessas de voz suor barulho fumaça. E por três vezes, falhei. Invariavelmente, tenho falhado quando digo que vou embora. Acaba que não vou, que fico lá mesmo, que fico ali, no ontem, estático, imensamente pesado. Fico ali, só isso. Convicto, aparentemente. E depois, quando acordo aqui, e tenho essas vertigens na hora de dizer as coisas, de olhar as coisas, quando acordo aqui, como eu dizia, eu sempre acho que ainda é ontem. Mesmo quando caminho sobre este piso limpo, sobre estes papéis cuidadosamente extraviados, sobre todas essas coisas domésticas, olhem, eu vou dizer pra vocês, eu caminhando sobre todas essa coisas, eu chego a jurar que ainda estou lá, que nunca dormi, que a madrugada é um negócio que volta pra casa junto com a gente. Olhem, eu vou dizer uma coisa pra vocês: eu como uma maçã , eu quero me convencer que tudo está em seu lugar. Eu, o dia lá fora, a rotina desgraçada e alegre dessa gente toda. Mas eu sei que estou irremediavelmente soterrado sob densas camadas de voz suor barulho fumaça. A vida, muito provavelmente, é líquida mesmo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

por assim dizer.

vou assuntar com a ponta quebrada do lápis.
mais tarde, se for o caso, rabisco floreio novo.


em noite branca de inverno, a gente ás vezes até que nem quer dormir.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Melancolia de reis

Os coletivos vazios, que rodam por ruas vazias, dão a exata medida da solidão que a noite de farra impõe ao dia seguinte. A gente é rara na paisagem da cidade. A euforia das cornetas e batuques, a cumplicidade sem critérios e sem endereço, o riso solto, a roupa mínima, a desavergonhada fauna e seu cortejo de carnes e perfumes...tudo que era sofreguidão deu lugar ao sono dos semáforos, a inércia das horas, ao silêncio imperturbável das avenidas. Alguém que mira a tarde por janelas descoloridas espanta-se com as figuras que flanam ainda, entre plumas e ressacas, náufragas atônitas encalhadas no rochedo da cidade. São fantasmas assombrando os bancos das praças, as grades cerradas dos botequins, aflitos decerto pela chamada dos apitos e pelo rufar dos tambores. São almas que vasculham as fontes e jardins na busca de uma fagulha que seja, de um rastro de confete ou de um repique redentor que brotasse do sossêgo dos becos. São reis em desatino, exilados no soturno do dia, com sorrisos de nuvens nos rostos maquiados. E são órfãos, como a tarde que finda.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Exercício de imaginação com gatos (1)

Imagino o dorso negro de um felino, quase etéreo no tramar esguio das patas sobre a borda estreita de uma janela. O seu ângulo privilegiado de visão abrange as sacadas dos andares inferiores, com os vasos repletos de begônias, samambaias e violetas vulgares; alguns metros abaixo, o cortejo entorpecido dos automóveis destila gases e ruídos, enquanto os transeuntes espreitam, receosos de seu destino incerto, os vultos velozes dos pneus, a transitória fúria dos motoristas, a canção colérica dos motores e buzinas. Imagino o felino vagando numa cadência leve sobre as calhas e os parapeitos, evitando com sensual desleixo os trechos comprometidos do edifício, arranhando incógnito o telhado das casas vizinhas. Na treva de uma árvore noturna, lambendo sonambulamente as patas enquanto geme por motivo algum, a presença irreal do gato acompanha o movimento sinuoso de dois corpos compenetrados na luta suave da pele contra a pele, sobre lençóis empapados, e pressente, um tanto remoto, o calor prematuro que se instala nas noites de outubro. Permito-me imaginar ainda com que farta sensação o animal recebe os odores envenenados que escapam dos carburadores em brasa, o aroma agridoce das flores e ervas dos jardins suspensos, o hálito de sono profundo dos amantes fatigados. A emanação dos bichos pequenos tampouco lhe passa despercebida. Com algum esforço, é possível rastrear o inseto em sua fresta, acossá-lo, trazer na garra precisa a presa relutante, que converte-se em refeição rápida - nunca antes do prazer do escárnio, do exercício de guerra aplicado ao jogo cruel. Por fim, amolando a unha no tecido de um sofá insosso, abandonado ao tédio das horas, o gato vai aos poucos (animal imaginado que é), reduzindo sua existência à uma vaga sensação que resta, indolência qualquer, aspereza de língua na pele, letargia só. Remota lembrança de um gozo.

domingo, 2 de novembro de 2008

Cartão postal (para ninguém)

Hoje eu vi a chuva riscando frases soltas nos telhados envelhecidos do meu bairro. Vi a maturidade chegando ao corpo de uma fruta, seu peso impondo ao galho uma condição nova e insuportável, e a vida desfeita em polpa e sementes no chão escuro do agosto. Um pássaro desatava óperas de lamento ao fundo de um pensamento meu muito antigo; ambos - o pássaro e meu pensamento - com asas em trapos sobrevoando o mesmo, o inevitável pátio da casa de sempre. Observei a magra figura de um homem que obrava em silêncio entre latas e ferramentas inúteis, na inútil tarefa de persistir ao tempo, moldar suas curvas, antever seu temperamento. Sobre uma mesa de madeira mal talhada, vi a folha em branco que aguardava, decerto, a tradução em grafite daquele dia eterno.
Vi a criança que brincava solitária no meio da rua, ouvi seu nome gritado uma, duas vezes pela mãe aflita na moldura da janela, os relâmpagos iluminando o fim da tarde, iluminando os séculos imóveis, a tormenta gestada na nuvem preta, o vento lambendo a esquina onde os bêbados cantavam o fim do mundo. Senhores, eu vi o rosto inconsolável do tempo, provei do fogo frio da sua palavra, e ando a pensar no sentido das coisas.